Tema do 22.º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 22.º Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma das questões mais exigentes da vida cristã: qual é o verdadeiro caminho para uma vida plena e feliz? A resposta que a Palavra de Deus nos oferece pode parecer desconcertante: a vida verdadeira passa pelo caminho da cruz, isto é, pelo amor, pela entrega, pelo serviço e pelo dom de nós próprios aos outros.
A “loucura da cruz”, de que nos fala a mensagem cristã, não significa procurar deliberadamente o sofrimento nem aceitar passivamente as injustiças. Significa compreender que amar de verdade implica muitas vezes renunciar ao egoísmo, ao comodismo, aos interesses pessoais e à procura do sucesso fácil. A cruz nasce quando o amor é levado até às últimas consequências. Foi esse o caminho percorrido por Jesus e é esse também o caminho proposto a todos aqueles que querem ser seus discípulos.
Na primeira leitura, o profeta Jeremias apresenta-nos a experiência dolorosa de alguém que se deixou conquistar por Deus e colocou a sua vida ao serviço da sua Palavra. Jeremias não escolheu um caminho de facilidades. A fidelidade à missão recebida obrigou-o a denunciar injustiças, a confrontar os poderosos e a questionar comportamentos e estruturas que contrariavam a vontade de Deus. Por isso, conheceu a incompreensão, a rejeição, a solidão e a perseguição.
A experiência de Jeremias mostra-nos que ser fiel à Palavra de Deus nem sempre significa ser aceite ou aplaudido. Há momentos em que viver de acordo com o Evangelho nos coloca em contradição com a mentalidade dominante. Quando isso acontece, pode surgir a tentação de desistir, de calar a verdade ou de adaptar os nossos princípios para evitar conflitos. Jeremias recorda-nos, porém, que a fidelidade tem um preço e que aquele que se coloca ao serviço de Deus precisa de estar disposto a perseverar mesmo quando o caminho se torna difícil.
Na segunda leitura, São Paulo apresenta-nos uma consequência concreta dessa fidelidade: somos convidados a oferecer a Deus toda a nossa existência. O verdadeiro culto que Deus espera de nós não consiste apenas em palavras, ritos ou celebrações exteriores; consiste em fazer da própria vida uma oferta.
Oferecer a Deus a nossa existência significa colocar nas suas mãos aquilo que somos, aquilo que fazemos, as nossas escolhas, o nosso trabalho, as nossas relações e o modo como nos relacionamos com os outros. Significa também não nos deixarmos moldar cegamente pela lógica do mundo. São Paulo convida-nos a transformar a nossa maneira de pensar, para podermos discernir aquilo que é verdadeiramente bom, justo e agradável a Deus.
Esta proposta é particularmente actual. Vivemos numa sociedade que frequentemente valoriza o êxito, o poder, o dinheiro, a aparência, o reconhecimento e a satisfação imediata. O Evangelho apresenta-nos uma lógica diferente: a lógica do serviço, da simplicidade, da solidariedade, da verdade e da entrega. O cristão é chamado não simplesmente a seguir aquilo que todos fazem, mas a perguntar, diante de cada situação: isto está de acordo com o Evangelho? Isto contribui para o bem dos outros? Esta é verdadeiramente a vontade de Deus?
No Evangelho, Jesus revela aos discípulos que o seu caminho passará pela rejeição, pelo sofrimento e pela morte. Pedro não consegue compreender essa perspectiva. Para ele, como para tantos de nós, é difícil aceitar que o Messias possa passar pela cruz. Esperamos frequentemente que Deus se manifeste através da força, do triunfo e do sucesso. Jesus, porém, apresenta-nos um Deus que se revela na humildade e no amor que se entrega.
Por isso, depois de anunciar a sua própria paixão, Jesus dirige aos discípulos um convite exigente: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.” Não se trata de procurar o sofrimento por si mesmo, mas de aceitar as exigências do amor. Tomar a cruz significa estar disposto a sair de nós próprios, a colocar os outros no centro, a servir sem esperar recompensa e a permanecer fiel ao bem mesmo quando isso implica sacrifício.
A cruz cristã é, portanto, muito mais do que um objecto que trazemos ao peito ou um símbolo presente nas nossas igrejas. É um modo de viver. Está presente quando perdoamos em vez de alimentar ressentimentos; quando ajudamos alguém sem esperar reconhecimento; quando defendemos quem é injustiçado; quando somos capazes de renunciar a uma vantagem pessoal para fazer o que é justo; quando permanecemos fiéis à verdade mesmo sabendo que isso pode trazer-nos incompreensão.
A Palavra de Deus deste domingo convida-nos, assim, a rever os critérios com que orientamos a nossa vida. Que procuramos realmente: o sucesso aos olhos dos homens ou a fidelidade aos olhos de Deus? Estamos dispostos a seguir Jesus também quando o seu caminho exige renúncia, coragem e perseverança? Ou procuramos um cristianismo sem exigências, uma fé que nos conforte mas não transforme a nossa vida?
A mensagem deste domingo não é uma glorificação do sofrimento. É, antes, uma afirmação de que o amor verdadeiro tem sempre uma dimensão de entrega. Quem ama verdadeiramente dá alguma coisa de si. E é precisamente nessa entrega que encontra uma vida mais profunda e mais verdadeira.
Jesus mostra-nos que perder a vida por amor não significa destruí-la, mas encontrá-la numa dimensão nova. Aquele que vive apenas para si próprio pode possuir muitas coisas, mas permanece fechado sobre si mesmo. Aquele que é capaz de se dar aos outros descobre uma riqueza que não pode ser medida pelo dinheiro, pelo prestígio ou pelo reconhecimento.
A liturgia deste domingo deixa-nos, por isso, um desafio muito concreto: não fugir sistematicamente da cruz, mas discernir aquilo que o amor e a fidelidade ao Evangelho nos pedem em cada momento. Algumas cruzes fazem parte inevitavelmente da condição humana; outras nascem das nossas escolhas. O cristão não é chamado a carregar todas as dificuldades de forma resignada, mas a transformar as dificuldades que encontra em oportunidades de amor, de crescimento, de serviço e de fidelidade.
No fundo, a pergunta que a Palavra de Deus nos coloca é simples e decisiva: estamos dispostos a seguir Jesus pelo caminho que Ele próprio percorreu? O caminho pode ser exigente, mas é o caminho que conduz à verdadeira vida. Porque, no Evangelho, a cruz não é a última palavra. A última palavra é a vida, a ressurreição e o amor que vence a morte.

