TEMA DO 26.º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, diz o Senhor; Eu conheço-as e elas seguem-Me.
A liturgia deste 26.º Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma pergunta simples, mas profundamente exigente: como respondemos ao apelo de Deus? Não basta escutar a sua Palavra, reconhecer a beleza do Evangelho ou afirmar com os lábios que acreditamos. A fé pede uma resposta concreta, uma resposta que se traduza nas escolhas, nas atitudes e na forma como nos relacionamos com Deus e com os outros.
Deus continua a chamar cada homem e cada mulher a colaborar na construção do seu Reino: um mundo mais justo, mais fraterno e mais humano, onde a paz não seja apenas um desejo, mas um compromisso assumido e vivido. Perante esse convite, cada um de nós é chamado a tomar posição. Podemos dizer “sim” e colocar a nossa vida ao serviço do bem; ou podemos permanecer indiferentes, adiando continuamente a resposta, refugiando-nos no comodismo, no egoísmo ou na ideia de que a transformação do mundo é responsabilidade dos outros.
A Palavra de Deus deste domingo recorda-nos, por isso, que a fé não pode ficar apenas nas palavras. Entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos existe, muitas vezes, uma distância que somos convidados a reconhecer e a superar. Deus não procura simplesmente discursos bonitos, aparências religiosas ou gestos exteriores que nos façam parecer bons aos olhos dos outros. Ele olha para o coração e para a verdade da nossa vida. O que conta é a coerência entre a fé que professamos e o modo como vivemos.
Um “sim” que se transforma em vida
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida o povo de Israel, que vive uma situação de sofrimento e exílio, a assumir com seriedade a sua responsabilidade diante de Deus. Não há lugar para desculpas ou para uma fé baseada na aparência. Cada pessoa é chamada a reconhecer que as suas escolhas têm consequências e que a relação com Deus implica uma transformação concreta da vida.
Esta mensagem continua profundamente atual. Também nós podemos cair facilmente na tentação de atribuir aos outros a responsabilidade pelo que acontece à nossa volta. É fácil dizer que a sociedade precisa de mudar, que as pessoas deveriam ser mais solidárias, que o mundo deveria ser mais justo. Mais difícil é perguntar: e eu, o que estou disposto a mudar? Que lugar ocupa Deus nas minhas decisões? Que compromisso assumo diante das necessidades daqueles que vivem perto de mim?
A conversão começa precisamente quando deixamos de olhar apenas para aquilo que os outros deveriam fazer e começamos a reconhecer aquilo que está ao nosso alcance realizar.
O Evangelho: mais importante do que dizer é fazer
No Evangelho, Jesus apresenta-nos a parábola dos dois filhos. Um deles diz inicialmente “não”, mas depois arrepende-se e vai trabalhar. O outro responde prontamente “sim”, mas não cumpre aquilo que o pai lhe pediu.
A parábola toca numa realidade muito humana: nem sempre as nossas palavras correspondem às nossas ações. Podemos dizer “sim” por educação, por hábito, por medo ou simplesmente porque queremos causar uma boa impressão. Podemos também ter momentos de resistência, dúvida ou afastamento e, mais tarde, encontrar o caminho da conversão.
Jesus mostra-nos que Deus não se fixa apenas na resposta inicial. Ele olha para aquilo que fazemos com a nossa liberdade e para a direção que damos à nossa vida. Há um “sim” que nasce dos lábios e outro que nasce das opções concretas. O primeiro pode ser apenas aparência; o segundo manifesta-se no serviço, no perdão, na justiça, na solidariedade e na capacidade de colocar o bem do outro acima dos nossos interesses.
Por isso, este Evangelho convida-nos a olhar com sinceridade para a nossa própria vida: o nosso “sim” a Deus é verdadeiro? A nossa fé produz frutos? As nossas palavras encontram correspondência nas nossas atitudes? Somos cristãos apenas nos momentos e espaços em que é fácil sê-lo, ou procuramos viver o Evangelho também quando isso exige renúncia, coragem e disponibilidade?
Cristo, caminho de humildade e serviço
A segunda leitura apresenta-nos o grande exemplo de Jesus Cristo. São Paulo convida a comunidade de Filipos a ter os mesmos sentimentos de Cristo: humildade, despojamento, serviço e entrega.
Cristo, sendo Filho de Deus, não escolheu o caminho do poder, da superioridade ou da afirmação pessoal. Escolheu fazer-se servidor. Desceu ao encontro da humanidade e entregou a própria vida por amor.
Esta é talvez uma das grandes contradições do Evangelho: para Deus, a grandeza não está em dominar, mas em servir; não está em colocar-se acima dos outros, mas em fazer-se próximo; não está em procurar reconhecimento, mas em oferecer a própria vida.
Seguir Jesus significa, por isso, aprender a sair de nós próprios. Significa vencer o individualismo que tantas vezes nos fecha nos nossos interesses e nos torna indiferentes às necessidades dos outros. Significa compreender que a fé cristã não é apenas uma relação pessoal com Deus, mas uma forma nova de estar no mundo.
Uma Palavra que nos interpela hoje
Vivemos num tempo marcado por muitas divisões, desigualdades, conflitos e inseguranças. Ao mesmo tempo, existe uma grande necessidade de pessoas capazes de construir pontes, de cuidar, de servir e de procurar o bem comum.
É neste contexto que a Palavra deste domingo ganha uma força particular. Deus continua a perguntar-nos: “Queres colaborar comigo?”
A resposta não precisa de ser grandiosa. Pode começar em gestos simples e concretos: escutar alguém que precisa de ser ouvido, perdoar uma ofensa, ajudar quem está sozinho, defender quem é injustiçado, partilhar o que temos, cumprir com responsabilidade a nossa missão, cuidar da família, do trabalho, da comunidade e da criação.
O Reino de Deus começa também nestes pequenos “sins” escondidos, muitas vezes sem aplausos e sem reconhecimento.
Para a nossa reflexão
Talvez este domingo nos convide sobretudo a passar das palavras à vida. Podemos perguntar-nos:
Onde tenho dito “sim” a Deus apenas com palavras, mas não com as minhas atitudes?
Há algum convite de Deus que tenho adiado por comodismo, medo ou indiferença?
Sou capaz de reconhecer os meus erros e recomeçar, como o filho que inicialmente disse “não”, mas depois mudou de atitude?
A minha fé torna-me mais disponível para servir e cuidar dos outros?
Que gesto concreto posso realizar esta semana para tornar mais presente a justiça, a fraternidade e a paz?
A liturgia deste domingo recorda-nos que Deus não procura pessoas perfeitas, mas pessoas disponíveis para se deixarem transformar e para transformar, com Ele, a realidade em que vivem.
O nosso “sim” a Deus não se mede apenas pelo que dizemos dentro da igreja, mas pelo modo como vivemos quando saímos dela. É na vida concreta, nas relações, nas escolhas e nos gestos quotidianos que a nossa fé se torna visível.
Que a Palavra deste domingo nos ajude a passar de uma fé simplesmente professada para uma fé vivida; de boas intenções para compromissos concretos; de uma religião de palavras para uma vida marcada pelo amor e pelo serviço.
E que, seguindo o exemplo de Cristo, aprendamos a dizer a Deus um “sim” que não seja apenas pronunciado pelos nossos lábios, mas escrito todos os dias nas escolhas da nossa vida.
